Buscar

Uma semana de ressaca eleitoral na resistência ATIVA


Corações em frangalhos, enfrentei uma segunda-feira esquisita, fria e fora de época. Havia gente cabisbaixa por todo canto, mas também um monte de gente feliz, buzinando em comemoração a eleição de seu presidente por escolha. Na zona sul do Rio houve gritos inacreditáveis de felicidade classicista. Democraticamente houve um apoio esmagador inegável, que já se apresentava assim desde os primeiros capítulos dessa história. Por algum motivo, no entanto, tem quem esteja surpreso, boquiaberto, sem chão, há quem realmente acreditasse que a gente ia virar. Sem querer ser chata (a essa altura da nossa lama) essa festividade passiva da esquerda tem sido tão pouco autoreflexiva que de tropeço em tropeço, assistindo o cara crescer, insistia nos mesmos erros alienantes dos últimos tempos, de discursos vazios aparecendo tarde demais na contenção do lado de cá


O #elenão e o #viravoto foram maravilhosos, mas aconteceram tarde demais por ingenuidade e alienação


Existem infinitas reflexões que se renovarão diariamente sobre este inflamado capítulo da nossa novela, mas hoje me permito tentar entender o que acontece entre nós para que aqui tenhamos chegado, nossa bolha futurista, engajada, artística, cheia de leituras, docs, performance. Como foi que andamos vivendo nosso movimento social (de entrega virtual) na vida real?


Permitir-se identificar os extremismos pessoais e os fascistóides entre os próximos é o processo incômodo que pode nos levar a um real amadurecimento sobre tudo que está acontecendo. Durante o mês inteiro de outubro tentamos atravessar a série nadando bravamente nas turbulentas ondas de notícias e choques de realidade estatísticos. Foi uma comoção generalizada diante do pavor do fascismo, esforço coletivo tardio e apaixonado bonito de ver, ainda que estejamos aqui agora meio ofegantes boiando à deriva já conseguindo avistar no horizonte outra série se formando, quebra coco esse que durará por 4 anos (ou mais, se a gente boiar). Antes que eu esgote minhas analogias de pirata náufraga, a melhor solução se apresenta meio óbvia tanto na política quanto no mar: submergir sempre que possível, administrar a energia e focar no que interessa


Em tempos obscuros de fascismo agonizante, é preciso MERGULHAR na luta por igualdade, além de encher a rua e se engajar na internet. O ativismo que vínhamos aprendendo de 2013 para cá, libertando tanta gente unida pela opressão vivida, chega em um novo momento, o patamar do olhar para dentro, de nós e dos grupos que pertencemos. Mergulhos profundos, e reflexivos sobre as luta anteriores às nossas, as cabeças pensantes responsáveis pelas ideias mais transformadoras da história, um verdadeiro levantamento do que somos e nos tornamos. Um processo profundo e poderoso, que corre o risco de não ser enfrentado direito caso as necessidades de entorpecimento no carnaval se tornem completamente irresistíveis A alienação é o que se espera de nos, regado a muito namastê


A conclusão inevitável de impotência é totalmente falida. As catarses coletivas repostadas à milhão para nossa própria bolha reforçam nosso próprio pertencimento - e já andam meio esvaziadas nessa semana fúnebre. Mas de fato, o que é o RESISTIR que circula infinito na rede, o que definiria existir ativamente no Brasil um mandato inteiro de absurdos? Para começar, uma boa dose de autocrítica sobre porque perdemos, parece o caminho mais realista.


Como sociedade civil, esse contingente enorme de gente (da minha bolha, e da sua também) com algum tipo de recurso, gente que pode doar 1 hora do seu tempo para ensinar no pré vestibular comunitário mais próximo. Ou levar seu projeto a alguma ONG, associação de moradores, escola pública, promover oficina na periferia. Você espalha conhecimento, ódio, ou fake news egocêntrico na internet? Existe um abismo que se tornará ainda maior nos próximos anos, a transformação do nosso comportamento é um dos caminhos para solucionar todos seus devastadores efeitos colaterais. A extrema direita está explodindo em cenário surreais impossíveis.


Que tipo de resistência ATIVA é praticada por nós, grandes leitores, informados, engajados, moderninho, completamente chocados postando sem parar mensagens antifascistas na internet?


Tem gente se afogando cedo demais

  • Instagram - Black Circle