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Quem aguenta o Brasil? O exaustivo resistir

Atualizado: 14 de Abr de 2019




Quem consegue sobreviver com lucidez e resistência às notícias do país? A essa difícil pergunta responderam muitas pessoas que acompanham a Viva La Vulva no Instagram, e o resultado não é de se surpreender: 70% disseram não conseguir acompanhar as notícias do Brasil, os cento e poucos dias de avalanches de merda que acabam por abater nossas almas já fragilizadas. Entendo que se distanciar desses acontecimentos é uma questão de zelo ao bem-estar, à nossa saúde mental e espiritual, e também muitas vezes uma necessária tomada de fôlego, que nem sempre significa falta de esperança. Eu mesma oscilo entre horas ininterruptas de jornalismo brasileiro responsável, mídia livre, noticiário internacional e contextualizações de Ciência Política, e muitos outros momentos ociosos de molho pesquisando sobre gravidez, bebês, alienígenas do passado, e assistindo RuPaul's Drag Race. Em dois mil e dezenove, cada indivíduo pensante traçou sua estratégia de sobrevivência, enquanto remenda como os buracos na autoestima


A tal da resistência, não como proposição passiva, de quem aguarda na invisibilidade os quatro anos se arrastarem, mas da existência em oposição produtiva, enquanto a gente se protege para não pirar, é a equação que se apresenta meio que diariamente desde o início do ano. Nessas horas sinto que vale recorrer à Nietzsche para lembrar que a razão é o mais potente dos afetos, e é através da nossa subjetividade que podemos encontrar instrumentos para enfrentar esses tempos. A consciência autônoma de nós e do nosso entorno é básica, e fica muito difícil esse combate ao fascismo quando não se consegue agir de maneira mais compassiva nas menores esferas da vida, onde os microfascismos disfarçados de indiferença alienantes acontecem. As revoluções começam dentro de nós pela autorreflexão, e daí para os menores núcleos, nessa labuta de formiguinha é preciso resiliência. Mesmo porque é nos núcleos menores que se combate o besteirol do populismo de extrema direita, que na versão brasileira já da pra chamar de bolsonarismo


O que vinha acontecendo nos últimos anos e que agora vive seu período de apogeu, é a ressignificação completa do léxico, dos símbolos, do próprio discurso nas conversas micopolíticas, aquele papo superficial (ou não) no almoço de família, em que parece que as frases de efeito fruto de um sentimento de indignação com nossa qualidade de vida e crise econômica são todas proferidas contra o PT, e imediatamente contra "a esquerda". A definição de esquerda foi totalmente distorcida, e para o bolsonarismo e a extrema direita populista do mundo, esse discurso, bem nostálgico no que tange à caça às bruxas comunista, é a base do fortalecimento identitário necessário para seu sucesso político de fato. Esse investimento na falsificação da esquerda não tem sido desmentido. Talvez falte mesmo paciência para conversar com que tem menos cultura de filosofia política que nós, ou simplesmente a vaidade intelectual burguesa de esquerda tenha nos impedido de participar desses debates. Tem também muita gente que gritou EleNão e hoje não quer mais se stressar, e se arrebanha na alienação completa por falta de coragem, compaixão ou vontade


Basta na ponta dos pés se posicionar para espiar fora da bolha, que a gente enxerga que lá fora, o debate público estabelecido estéticamente, hiperconectado, nos jornais, na tv, no cotidiano totalmente polarizado, pessoas que há muito pouco tempo eram anti pt, anti sindicatos, mas incapazes de proferir essas ignorâncias, estão repetindo absurdos por cristalização identitária, a necessidade de pertencimento a um universo em que o presidente fala isso, blogs, grupos de whatsapp, o chanceler, o ministro da educaçao e por ai vai, ao ponto de se convencerem cegamente sobre absurdos como nazismo ser de esquerda, não como uma revisão histórica, e sim para justificar o antagonismo contra um "mal extremo". Não importa a que a própria Alemanha tenha repudiado a falácia. O compromisso identitário tem como contrapartida a entrega quase que absoluta à realidade construída pelo movimento ideológico representado pelo presidente, ainda que se negue o pertencimento à ideologias nessa gestão. Nesse mesmo bolo entram velhas máximas conhecidas como "bandido bom é bandido morto", "na ditadura não era essa bagunça" e "a esquerda vai transformar o Brasil na próxima Venezuela"


Combater tanta ignorância nos níveis hiperbólicos institucionais é quase impossível. Nos resta a missão cotidiana e nuclear de explicar para as pessoas que ESQUERDA é a ideia de crítica ao capitalismo, de que é necessária a intervenção ativa do estado do mercado para que se evite/controle a desigualdade social, e nas suas versões mais radicais, a necessidade de se questionar a propriedade privada dos meios de produção junto da proposta de reorganização do estado na direção de dar para os trabalhadores o controle do governo, dos meios de produção e formas de vida, impedindo assim a estrutura de acúmulo de riqueza nas mãos de poucos. Da mesma maneira, precisamos de pedagogia para falar que feministas não odeiam homens, e que a cultura machista atrapalha, em (óbvios) níveis diferentes, a todxs nós


Resistir a tamanha alucinação extremista demanda principalmente disposição para distinguir entre bolha x rebanho, estratégia de sobrevivência x alienação e bolsominion x pessoa capaz de refletir com uma boa conversa

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