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Pés no chão e reflexões ácidas

Atualizado: 29 de Out de 2018



O fascismo tá bombando, não só no Brasil, mas no resto do mundo. Palavra horrorosa. A gente fica se perguntando se é isso mesmo, se eu tô sendo anacrônica, exagerada, desesperada. Tem tanta gente se atrapalhando nas emoções, tropeçando em si mesmo pelo assombro, em um entusiasmo meio vazio de quem se politiza à beira da eleição do fascista e fala sem parar as mesmas coisas para a própria bolha nas redes sociais


Estamos mesmo é nos abraçando a cada # elenão aumentando nosso contingente com @viravoto, mas sendo mais realista, como foi Mano Brown absoluto no Rio aqui na terça, eu já estou me preparando, e tenho infinitas reflexões sobre comportamentos fascistas vindos de todos os cantos. Fora daqui também, é assustador. Em Chemnitz, na Alemanha, neonazistas mostram abertamente nas ruas o seu ódio contra os imigrantes. Em Charlottesville, nos Estados Unidos, supremacistas brancos desfilam sua ira contra os negros. No Brasil, mostram-se sem maiores pudores louvores à tortura, à execução sumária de “bandidos” e o elogio do “cidadão de bem”, que estaria prestes a eleger aquele que “daria um jeito” à “corja” unicamente responsável por todos os males do país: em primeiro lugar o PT, mas também os “comunistas”, os LGBTQs as mulheres que não se conformam com o papel a elas atribuído pela dominação patriarcal, os negros, os índios


Vivemos muitas possíveis identidades no século XXI. Nos últimos anos é possível que sua vida tenha sido de alguma maneira afetada por discursos mais progressistas sobre gênero, racismo e desigualdade, e isso tem a ver com a maneira como novas ideias de identidades e comportamentos circulam na internet mas estamos engatinhando nesses novos arranjos de comunicação instantânea e global em rede (se a gente fizer um exercício de desnaturalização dos avanços tecnológicos é chocante perceber que estamos prestes a conviver no dia-a-dia com inteligência artificial e a “internet das coisas). Tudo isso traz complicações sociais para um mundo que ainda é habitado por representantes do passado em que identidades não era plurais, muito menos fluidas


Fascismo é o que acontece quando as pessoas não querem lidar com os novos arranjos e novos comportamentos. É uma tentativa de simplificar/ignorar as complicações desse novo mundo negando todas as identidades em virtude de uma única identidade nacionalista. Esse discurso vazio de que “é pelo Brasil” tem em seu âmago na tentativa de silenciar muitas demandas do movimento social, convidando almas já preconceituosas (nunca é demais dizer que o racismo é estrutural no nosso país) ao senso de pertencimento a algo maior e mais importante, nesse caso, um retorno a um Brasil pacato e tranquilo que nunca de fato aconteceu


Se torna mais complicado ainda entender o fascismo, se toda associação que fizermos for ao nazismo alemão. Automaticamente toda aquela monstruosidade parece muito distante e o argumento não mexe com o já ausente de senso de coletivo e direitos humanos universais na maioria dos eleitores brasileiros. Existe uma crença de que o Bolsoeca é melhor para o país, que foi construída através de um longo processo de manipulação emocional de um cenário político novelesco e burro. Mais do que isso, a mídia contribuiu para terminar de desgastar a imagem do PT, que deu um tiro no pé ao insistir na candidatura de Lula preso


Tem um monte de gente agindo mais enfaticamente agora, quando estamos à beira da assustadora eleição da extrema direita, que é incapaz de, em seu dia a dia, agir de maneira mais coerente com a vida coletiva, ou com o movimento social ao qual diz pertencer. As feministas detectaram logo o esquerdo-macho como espécime clássica desse fenômeno dos novos tempos de lutas coletivas no Brasil. Há mulheres feministas TRATANDO OUTRAS MULHERES MAL, há também ACADEMICISMO, classecismo, e por aí vai


Existem muitos comportamentos nojentos entre a galera à esquerda, que talvez só sejam acessados e curados depois dessa porrada neoliberal clássica. Nossa opção hoje em dia é entre esclarecimento ou barbárie. Ou lutamos para nos tornarmos conscientes de tudo que apela à agressão e ao preconceito em nós mesmos e nos outros, ou abraçamos o fascinante fascismo daqueles que tiram sua sobrevivência psíquica da vã satisfação de odiar

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