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Bolsonarismo & Escatologia, os fenômenos do governo brasileiro

Atualizado: 20 de Mar de 2019

Com o fenômeno golden shower, Bolsonaro nos fez recentemente atentar, em níveis diferentes dependendo da disposição individual para lidar com o bizarro, para uma escatologia promovida por ele mesmo - já que aquele vídeo não viralizou agora, nem parece datar desse carnaval. Escatologia é a palavra mais indicada para descrever o post do tragicômico presidente, termo que se refere a excrementos humanos e obscenidades. Acaba que no contexto não laico do Estado brasileiro, fica impossível não analisar essa situação sob a dimensão da escatologia religiosa, outra perspectiva associada à mesma experiência, e ao objetivo dessa difusão do grotesco pelo presidente.



No contexto religioso a escatologia diz respeito ao fim dos tempos, o apocalipse, o fim do mito, da história da existência segundo preceitos simbólicos de determinada religião e cultura. Uma narrativa que tem um desfecho, representado por uma mitologia escatologica. No caso do cristianismo, o apocalipse de dá com o retorno de Jesus. São muitas correlações possíveis com o presidente do Brasil, e como a parte militante do bolsonarismo o coloca como o mito salvador, aquele que apresenta um desfecho em sim, o fim de um ciclo político. Acredite se quiser, houve uma galera da militância digital do presidente que se sentiu muito contemplada pela distorção do carnaval em níveis internacionais, postando a hashtag bosonarotemrazão


O bolsonarismo representa para essas pessoas um encerramento, a morte da esquerda, um fim da mamata, do mimimi, do pt, da corrupção, do feminismo, da liberdade de gênero, um enredo novelesco que tem a ver com essa escatologia mitológica atribuída/construída pelo Bolsonaro, e usada como slogan bem sucedido de uma campanha a qual se referia a ele como MITO. Havia a promessa de conclusão de um processo político com o qual as pessoas estavam totalmente fartas, que traria a conclusão moral para uma sociedade entregue à libertinagem, ao "socialismo"(segundo a visão ignorante deles), o modernismo que derruba papéis de gênero, etc. Ele se apresentou e foi acolhido como a figura responsável pelo encerramento desse período nefasto, cuja autoria seria da esquerda e suas ideologias.


Nesse sentido existe uma instrumentalização do absurdo obsceno no constante ataque aos opositores políticos e ideológicos do governo. As declarações da Ministra Damares sobre sexualidade e papéis de gênero são de uma ignorância inacreditável, que se valem da obscenidade escatológica RELIGIOSA, absolutamente paralisante pelo absurdo responsabilizando o outro lado pela depravação moral, ética, estética da sociedade. No Dia Internacional da Mulher, além de declarar a necessidade de se educar meninos para que entreguem flores à meninas, a ministra ainda identificou no discurso igualitário da esquerda a raiz da violência contra a mulher segundo uma premissa (dela) de que não existe igualdade de capacidade física. Então o menino bate, estupra, mata porque foi ensinado a ele uma igualdade física.


Estamos vivendo um período de completo abandono do espírito autocrítico, e a externalização cega do mal materializado em tudo, todas e todxs que representa as novas formas de existir de um futuro breve, assustadora para o conservadorismo cristão, militarizado e racista do Brasil. Afinal, parafraseando o novo álbum do Baiana System, O Futuro Não Demora (e é nosso)


Krystal Freitas

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