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BolsoEca nos EUA: uma reflexão sobre todxs nós

Quem se deu o trabalho de acompanhar a visita do presidente aos Estados Unidos, provavelmente, assim como eu, ficou com um certo nojo daquela cena patética de subserviência e babação de ovo completa - não recíproca. Já estampando memes por toda internet, está a cara cheia de marra do Trump, que notoriamente xenófabo, que deve ter ficado aliviado quando os boçal militar cucaracha de batente baixa saiu da sua sala



O vexame internacional do Brasil hoje é na verdade ótimo para o enfraquecimento, o desgaste do bolsonarismo, do nosso tipo muito peculiar de fascismo tropical. aquele encontro inédito, não bilateral, deflagrou muito do patriotismo praticado por parte do Brasil,o patriotismo a la Bolsonaro, sem projeto, sem visão clara do Brasil, completamente infantilizada e fruto de senso comum. Não existe uma produção cultural que ilustre o que Bolsonaro e sua trupe querem para o Brasil, além dos elementos contra os quais eles se afirmam. O ódio é o principal motivador de todas as ações e o sentimento base dessa "tradicional famíia brasileira" que encontra afinidades entre os pares nessa raiva e desejo de extermínio dos gays, trans, feministas, da cultura índigena, do movimento negro, etc. O que foi aquela declaração sobre o "fim do politicamente correto"?? O presidente do Brasil, ao lado de um dos mais bizarros presidentes já eleito pelos americanos, dizendo "seremos inescrupulosamente preconceituosos e foda-se". Eu ri muito (para não chorar)




Existe um descaso tão completamente explícito a respeito da defesa por direitos humanos, dos nossos recursos naturais, da cultura popular brasileira. Ele se estende ao pensamento social produzido no Brasil, à grandes nomes da nossa educação como o aclamado Paulo Freire, referência na pedagogia para o mundo inteiro, só não para a galera da igreja, da Damares e os militares. Fico matutando eternamente sobre as origens desses sentimentos, a força motriz para o avanços de ideias retrógradas, e talvez tenha encontrado respostas mais claras no próprio discurso do presidente nos EUA, carregado de emoções antibrasileiras.


Vou aproveitar para reportar um pouco do meu background em ambientes majoritariamente privilegiados do Rio de Janeiro, bairro de classe média alta, escolas e universidade particular de ponta. Se havia algo comum a todos esses lugares, era uma tendência geral a menosprezar o Brasil em função de uma admiração ao primeiro mundo, seja pela diferença gritante na qualidade de vida (uma forma bem mais branda de sentimento antibrasil) seja pela exaltação descarada, privilegiada e cega, que culpava o brasileiro pelos percalços do nosso país, com frases prontas e vazias como “'brasileiro não tem educação” "lá fora as pessoas são mais civilizadas” e por ai vai. Independente da sua origem, em algum momento da vida é possível que tenha escutado alguém falar do exterior com admiração pouco crítica, que ignora nosso contexto brasileiro, desde os tempos de colônia. O fenômeno recente de fugas para Portugal e emissão de passaportes europeus ilustra bem esse cenário.





O Brasil sempre foi projeto da exploração internacional: uma grande fazenda explorada por parte dos estrangeiros, interessados em produtos agrícolas e minério, única e exclusivamente, e não no nosso desenvolvimento social, econômico, tecnológico. A elite brasileira, parte minúscula da população, nascida ou tendo fincado raízes no Brasil, sempre enviou seus filhos para a formação no exterior, para que as ideias europeias e evoluídas chegassem por aqui. Existe até hoje essa relação com o "primeiro mundo", em que se espelha no exterior o que a elite gostaria de ver em si mesma. Um sentimento bem difundido entre classes altas e médias no Brasil, é a vergonha de ser brasileiro, o azar de aqui ter nascido, e a necessidade urgente de transformação do país nesse primeiro mundo admirado cegamente, sem criação ou apreço pela identidade nacional. A paixão pela Disney, pelos símbolos americanos que invadiram nosso cotidiano pelo cinema, a música, a televisão. Uma motivação que incapabiliza a crítica, e só alimenta o sonho de viver/ser um pouquinho como os gringos. Até os padrões estéticos dos povos norteamericanos e europeus costumam ser supervalorizados por aqui.


Quando Bolsonaro repete 3 vezes nos 10 pífios minutos durante somente os quais foi capaz de falar, ele representa de maneira tragicômica o sentimento de muita gente no Brasil, da extrema direita ao campo progressista: o sentimento de repúdio pela identidade brasileira, indígena, negra, sulamericana, sofrida, suada, e mesmo assim, tão cheia de alegria, espontaneidade, tão capaz de resistir e criar a partir do que se tem, tão capaz de transformar e reinventar com som, cor, ritmo, com tanta diversidade. Lixo não é o Brasil, é a índole de gente como o presidente, que permitiu com que o Brasil fosse tratado como tal há tantos anos.

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